O seu browser não suporta JavaScript! ISPA N1 MINUTO | Newsletter novembro 2020 | ISPA – Instituto Universitário
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ISPA N1 MINUTO | Newsletter novembro 2020

 

Carl Sagan dizia, numa tradução aproximada, que “vivemos numa sociedade profundamente dependente da ciência e tecnologia, na qual é raro alguém perceber de ciência e tecnologia”. É por isso que, desde o seu tempo, mais e melhores têm sido as iniciativas para aproximar Ciência e Sociedade, e a Noite Europeia dos Investigadores é prova clara, ao nível nacional, disso mesmo. Um manifesto que, ano após ano, congrega um cada vez maior número de pessoas em volta de cientistas que procuram transmitir, das formas mais criativas e acessíveis, o seu trabalho. Sejam curiosos, procurem explicações: assistam à Noite Europeia dos Investigadores. Vai valer a pena.

 

João Gonçalo Camilo

Gabinete de Marketing e Comunicação

 

 

       

 

 

The Dark Side of the School

 

José Morgado marcha todas as manhãs, perto da localidade onde nasceu e onde o trânsito é, diariamente, notícia: o Feijó. “Uma terra com um nome engraçado.”

 

“Sou um fanático da Margem Sul – a qual chamo de Margem Certa do Tejo.” Filho de serralheiro e de costureira, contrariou o destino “atingindo aquilo que se procura sempre com a educação, que é a chamada mobilidade social e que ainda hoje estamos longe de promover de forma significativa – isto para dizer que eu fui a primeira pessoa que estudou na minha família.”

 

Aos 12 anos já sabia que queria trabalhar com “as coisas ligadas aos problemas das pessoas”. Infelizmente para o jovem José Morgado, talvez “por insuficiência de informação, a minha ideia relativamente ao caminho a seguir para trabalhar com pessoas seria Medicina.” Para agravar a situação, revela que nutria uma ambiguidade emocional no que toca a esse ramo profissional porque “entrava num hospital e ficava maldisposto.”

 

Salvou-o um professor de Filosofia no 11.º ano, José Barata Moura. Na altura, o programa no ensino secundário era repartido entre uma metade de Filosofia e a outra metade de Psicologia: o jovem José Morgado teve uma epifania e descobriu a sua vocação. Matriculou-se no ISPA em 1973, a tempo de evitar o recrutamento para a Guerra Colonial, algo que se recusava determinantemente em participar; “o resto é história”, conclui, com um sorriso.

 

Quando decidiu ingressar em Psicologia, José Morgado levava a ideia de que o que gostaria de fazer seria trabalhar com jovens, porque “na altura também o era e achava que valia a pena olhar para nós, o que vivíamos e o que fazíamos.” O seu terceiro ano no ISPA lançou-o no caminho certo quando se cruzou com a apresentação de uma iniciativa para dar resposta a “miúdos mais pequenos e adolescentes com deficiência, porque na altura não havia basicamente respostas, a não ser algumas instituições específicas para paralisia cerebral, para os cegos, surdos, deficientes motores, etc.”. Esta iniciativa é a agora nacionalmente conhecida CERCI. “No dia a seguir estava a bater à porta da instituição a oferecer-me como voluntário”; ajudou a pintar as paredes e a concluir o centro de Chelas, que abriu no ano seguinte. No seu quarto ano conseguiu um contrato profissional de funcionário da CERCI e, depois de concluir o curso no ISPA, “fiquei lá como psicólogo durante algum tempo, com a direção pedagógica da instituição. Foi um trabalho muito interessante nesses anos, em que percorremos o país inteiro porque várias pessoas queriam criar movimentos – encontrámos zonas com miúdos cujos pais saíam para trabalhar no campo e os deixavam atados a uma mesa pesada na parte de baixo da casa, porque não tinham onde eles pudessem ficar.”

 

A primeira grande mudança de direção na sua carreira profissional surge ao fim de três anos; entre fazer “campanha com autarcas, pessoas e pais” e reuniões para conseguir apoios do Estado onde “talvez tivesse alguma visibilidade e empenho”, é convidado para ir trabalhar para o Ministério da Educação, integrando a equipa que coordenou e implementou, ao nível nacional, os primeiros Serviços de Psicologia e Orientação. No entanto, o trabalho mais burocrático revelou-se incompatível com José Morgado; o desagrado era grande, especialmente pela “pouca capacidade de mudança, pouca capacidade de realização.” A burocratização dos processos desgastou-o de tal forma que, numa visita oficial, se apresentou a um ministro como “José Morgado, Técnico de Ideias Gerais”. O ministro parou. “Técnico de Ideias Gerais?”, “Sim, tenho formação em Psicologia, mas o Ministério não entende que os psicólogos merecem uma carreira. O trabalho que faço é o que me cai em cima da secretária.”

 

Não se arrepende da opção que fez: “deu-me uma bagagem enorme, ainda hoje fiquei com esse lastro de falar das políticas públicas e perceber o que são, compreender o impacto que têm os orçamentos em legislação – o que é a máquina do Ministério a funcionar.” Mantinha contactos com o ISPA e foi com uma proposta para dirigir o antigo polo de Beja que decidiu, gradualmente, abandonar o vínculo a este órgão público do Estado.

 

José Morgado é casado com uma professora há mais de 40 anos, mas brinca que “por vezes, as relações entre professores e psicólogos não são fáceis; não é a minha experiência. O primeiro ano que ela deu aulas foi numa vila chamada Panóias, Ourique; saía-me caro o namoro, mas de vez em quando ia lá.” A paixão pelo Alentejo cresceu – autointitula-se de “Alentejano dos afetos” – e a proposta do ISPA surgiu, coincidentemente, quando compraram um monte para restaurar a 50 km de Beja (“na altura em que ainda não era moda”).

 

A acrescentar ao seu casamento escreveu, a propósito do seu fim de carreira, que está “numa relação com o ISPA”. Desde que aceitou começar por dar uma cadeira sobre ensino especial, não mais deixou a casa que o formou. A razão? Sempre lhe foi dada a liberdade para prosseguir com a sua intervenção nas escolas, apesar de por vezes o ritmo ter sido de rockstar . Lembra, bem-humorado, de uma ocasião em que o “levaram de avião a Bragança no domingo para ir fazer uma palestra e me vieram trazer de madrugada, porque tinha aulas na segunda-feira de manhã.”

 

Por falar em estrelas de rock, José Morgado estabelece aptamente uma analogia com os Pink Floyd no que toca ao seu trabalho. Explica que sempre esteve no Dark Side of the School , aquele lado que não funcionava: os miúdos com deficiências, com problemas, os miúdos do bullying , os indisciplinados, as minorias… era esse lado que me atraía.” Ao longo da sua carreira exerceu intervenção clínica, “mas foi a parte que menos me satisfez. O que acontece é que como trabalho na área da educação, se estiver fora da escola, e os problemas muitas vezes surgem lá, tenho uma capacidade muito limitada de intervir.”

 

Perguntamos qual é a maior lacuna que acredita existir na atual educação dos mais novos. A resposta é curta e impactante: tempo. “Vivemos numa sociedade que nos rouba o tempo. As famílias têm pouco tempo, de uma forma geral, para estar com os miúdos. O reverso disso é o excesso de tempo que os miúdos estão na escola.”

 

Família e tempo é algo que reside no pensamento de José Morgado desde que foi avô pela primeira vez. “É muito interessante, porque de facto antecipava com alguma expectativa a ideia. Uma coisa mágica de se perceber é o salto de geração, que aquele gaiato é filho do meu filho. Dá-nos uma dimensão de história.” Sobressai um ar de contemplação e de felicidade quando menciona os seus netos, agora com 4 e 7 anos. “São de facto uma coisa extraordinária, vê-los a discutir e a perguntarem coisas que sabemos ser do seu funcionamento, mas das quais já não nos lembramos”, conta. Para José Morgado, “os avós são um bem de primeira necessidade na vida dos miúdos, eu acho. Não são bem os pais do dia a dia, é uma situação interessante e estimulante, e acredito que para eles também seja bom – isto quero-me eu convencer.”

 

O que é, para José Morgado, ser Ispiano?

É o sentimento de tribo, não no sentido de defesa ou culto de superioridade em relação a outras, mas esta pertença fundamental para o nosso desenvolvimento pessoal e profissional. É um dos problemas que os miúdos têm nas escolas, a falta deste sentimento. Acho que o ISPA pela sua escala, a sua cultura, a relação entre as pessoas – alunos, professores, funcionários – a cria com relativa facilidade e é isso que me atrai.

 

 

 

 

Há quase 20 anos, na antiga Unidade de Eco-Etologia do ISPA, começámos a trabalhar em genética de peixes de água doce. Depressa percebemos que os nossos objetos de estudo podiam desaparecer irremediavelmente de um momento para o outro, após uma temporada de seca extrema ou em resultado de uma descarga poluente mais significativa. A inevitável sensação de perda iminente despoletou a vontade de contribuir para minimizar o risco de extinção das espécies às quais dedicávamos a nossa investigação e que nos levaram a conhecer lugares remotos de uma beleza comovente, um pouco por todo o país.

 

Publicar artigos sobre elas é uma parte fundamental desse contributo, mas sentíamos a urgência de fazer mais. Era preciso aproximar a academia da sociedade, mostrar às autarquias que no seu território existiam espécies endémicas em risco de desaparecer, explicar às populações ribeirinhas a importância vital de reabilitar os rios onde há apenas alguns anos muitos aprenderam a nadar, mostrar que pequenas mudanças de hábitos individuais podem realmente fazer a diferença na preservação dos ecossistemas aquáticos. E precisávamos de aliados para isso, claro. Pareceu-nos que o mais indicado seria escolher pequenos aliados com 9/10 anos a quem atribuiríamos o título de “guardiões dos rios” que correm na proximidade das suas escolas e esperar que, também eles, fossem comunicadores de ciência em casa e na comunidade. Foi uma escolha acertada.

Desde novembro de 2017, o Projeto Peixes Nativos, resultante de uma parceria estabelecida entre o ISPA e a empresa Águas do Tejo Atlântico, desenvolveu atividades de educação ambiental em sala de aula e em saídas de campo com mais de quatro centenas de crianças do 1.º ciclo dos Municípios de Oeiras, Torres Vedras, Sintra, Alenquer, Mafra, Caldas da Rainha e Óbidos. Promover a literacia ambiental das populações ribeirinhas e a preservação dos recursos naturais da região é o objetivo que nos move, mas o que temos vindo a desenvolver não é uma partilha unilateral.

 

Transmitimos conhecimento mas recebemos como retorno a euforia com que realizam os jogos temáticos que lhes propomos, o entusiasmo audível na caminhada até ao rio, o orgulho com que ostentam a prancheta para preencher a ficha de campo quando lhes pedimos para serem biólogos por um dia, os alertas quando detetam descargas nos “seus” rios, a confissão em surdina sobre ter obrigado a mãe a não desperdiçar a água do banho, o espanto de uma professora por muitos terem passado a dizer que querem ser biólogos quando crescerem ou os desenhos que nos oferecem à saída. Assim escritos, poderão parecer exemplos sem importância. Para nós têm sido sementes de esperança num futuro mais respeitador do Ambiente e da Biodiversidade. Algumas não vingarão, seguramente, mas nas que vingarem, depositamos todas as nossas esperanças.

 

 

Carla Sousa Santos

Investigadora MARE-ISPA

 

[O Projeto Peixes Nativos foi recentemente premiado pelo Fundo Ambiental e conta com o apoio institucional do MARE, ICNF, Aquário Vasco da Gama e Pavilhão da Ciência. Pretende ser um dos contributos dos investigadores do ISPA para a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade, que visa “alcançar o bom estado de conservação do património natural até 2050, assente na progressiva apropriação do desígnio da biodiversidade pela sociedade, por via do reconhecimento do seu valor, para o desenvolvimento do país e na prossecução de modelos de gestão mais próximos do território”.]

 

 

 

Concursos FCT

As investigadoras Marília Ornelas e Maryse Guedes foram selecionadas para um contrato de investigação no Concurso Estímulo ao Emprego Científico Individual - 3.ª Edição, da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

 

ISPA na EAHIL 2020, Polónia

Carlos Lopes, Maria da Luz Antunes e Tatiana Sanches foram premiados como a Melhor Comunicação Oral apresentada na European Association of Health Information and Libraries (EAHIL) 2020, em Lodz, Polónia.

 

Joana Mello no livro PubhD de Lisboa – 5 anos

A investigadora Joana Mello é um dos 37 destaques do livro que comemora os cinco anos do PubhD, uma “tertúlia mensal gratuita, sobre investigação académica, que decorre num bar do centro de Lisboa.”

 


 

Artigos publicados

  • Blom, S.S.A.H., Aarts, H.,  Semin, Gün R . (2020). Perceiving emotions in visual stimuli: social verbal context facilitates emotion detection of words but not of faces.  Experimental Brain Research   https://doi.org/10.1007/s00221-020-05975-9
  • Sutherland, W.J., Atkinson, P.W., Broad, S., Brown, S., Clout, M.,  Dias, Maria P , Dicks, L.V., Doran, H., Fleishman, E., Garratt, E.L., Gaston, K.J., Hughes, A.C., Le Roux, X., Lickorish, F.A., Maggs, L., Palardy, J.E., Peck, L.S., Pettorelli, N., Pretty, J., Spalding, M.D., Tonneijck, F.H., Walpole, M., Watson, J.E.M, Wentworth, J., Thornton, A. (2020). A 2021 Horizon Scan of Emerging Global Biological Conservation Issues.  Trends in Ecology & Evolution   https://doi.org/10.1016/j.tree.2020.10.014
  • Bolgan, Marta, Pereira, Beatriz P. , Crucianelli, A., Mylonas, C. C., Pousão-Ferreira, P., Parmentier, E., Fonseca, P. J., &  Amorim, M. Clara.  (2020). Vocal repertoire and consistency of call features in the meagre Argyrosomous regius (Asso, 1801).  PLOS ONE   https://doi.org/10.1371/journal.pone.0241792
  • Lenzi, M., Santinello, M., Gaboardi, M., Disperati, F., Vieno, A., Calcagnì, A., Greenwood, R. M., Rogowska, A. M., Wolf, J. R., Loubière, S., Beijer, U., Bernad, R.,  Vargas-Moniz, Maria João, Ornelas, José , Spinnewijn, F., Shinn, M., & HOME_EU Consortium Study Group. (2020). Factors Associated with Providers' Work Engagement and Burnout in Homeless Services: A Cross-national Study.  American journal of community psychology   https://doi.org/10.1002/ajcp.12470
  • Furtado, Ricardo , Granadeiro, J.,  Campioni, Letizia , Silva, M.,  Catry, Paulo . (2020). Trace elements’ reference levels in blood of breeding black-browed albatrosses Thalassarche melanophris from the Falkland Islands.  Environmental Science and Pollution Research   https://doi.org/10.1007/s11356-020-09928-1
  • Marôco, João, Assunção, Hugo , Harju-Luukkainen, H., Lin, S. W., Sit, P. S., Cheung, K. C., Maloa, B., Ilic, I. S., Smith, T. J., & Campos, J. (2020). Predictors of academic efficacy and dropout intention in university students: Can engagement suppress burnout?  PLOS ONE   https://doi.org/10.1371/journal.pone.0239816

 

 

 

Noite Europeia dos Investigadores – 27 novembro, 14h30
 
A Noite Europeia dos Investigadores está aí à porta! Pela primeira vez online, o maior evento em Portugal a juntar Ciência e Sociedade conta com um programa virtual com mais de 200 atividades, onde o ISPA integra três, sendo duas delas em nome próprio e uma a convite do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente. Não percam!
Atividades ISPA
  • “Quanto vale um nome?” | Jogos, Apps e Desafios
  • Vida nos Oceanos do Futuro | Conversas e Controvérsias
  • Fique ligado com o MARE | Em direto (19h30)
 

Conheçam o programa por completo  aqui .

 


 

 

Ciclo de Conferências – 26 novembro, 17h00

 

O Ciclo de Conferências está de volta com novo horário!
Todas as quintas-feiras às 17h00 iremos continuar a proporcionar plataformas para ousar saber. Retomamos assim esta nossa rubrica semanal para o ano letivo 2020/2021 e, tendo em conta as circunstâncias atuais, as sessões vão manter-se online, transmitidas nas nossas redes sociais (  Facebook  ,   LinkedIn   e   Vimeo  ). O ciclo recomeça no dia 26 com o tema “Brincar e ser ativo na infância”, apresentado pelo Prof. Doutor Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, a convite da Prof.ª Doutora Ana Teresa Brito, do ISPA.
 

 

 

 
SUnStAR - Sessão de Apresentação – 3 de dezembro, 14h30
 
A sessão de apresentação da Plataforma SUnStAR (Supporting University Students At Risk of dropping out) realiza-se no próximo dia 3 de dezembro, pelas 14h30. 
 

 

 
Webinar  Promoção do Bem-Estar Animal  – 11 dezembro, 18h 00
 
Este webinar será conduzido pela equipa que dirige a Pós-Graduação do ISPA com o mesmo nome, os Professores Doutores Rui Oliveira e Leonor Galhardo. Inscreva-se  aqui .

 

 

 

 

Ana Teresa Brito no programa Imperdíveis, da Rádio Observador   José Morgado e Sérgio Gaitas na Visão - peça Brincadeira Confinada  (versão impressa apenas) Licenciatura em Biologia do ISPA na Human Resources
 
João Marôco na Revista E do Expresso - peça Por um fio  (versão impressa apenas) Ana Teresa Brito na Renascença  

 

 

 

Nova Provedora do Estudante

A Professora Joana Robalo é a nova Provedora do Estudante do ISPA, sucedendo assim ao Professor Manuel Eduardo dos Santos.
A nomeação entrou em efeito no passado dia 10 de novembro de 2020.
O ISPA agradece todo o trabalho árduo, dedicação e empenho do Professor Manuel Eduardo dos Santos nos 10 anos em que ocupou a posição, e deseja muito sucesso à Professora Joana Robalo neste novo desafio.

Para assuntos relacionados com a Provedoria do Estudante:  provedor.alunos@ispa.pt

Saibam mais em  http://www.ispa.pt/pagina/provedor-do-estudante