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Professor Doutor Aziz Nacib Ab'Saber

ISPA comunica falecimento do Professor Doutor Aziz Ab'Saber

 

Há quem acredite que só morre quem é esquecido.

 

O Prof. Aziz Ab´Sàber viveu entre 24 de Outubro de 1924 e 16 de Março de 2012. O Brasil chora-o, já com saudade, em Portugal, o ISPA não o esquece.

 

Em 2000, o então Director do ISPA, Prof. Frederico Pereira, trouxe-o até Portugal e no ISPA ele contactou com muitos dos que ainda hoje lembram a sua presença, as suas palavras, o seu trabalho. A 24 de Maio de 2001, Aziz voltou a Portugal e foi homenageado no ISPA, onde foi inaugurado, por iniciativa do mesmo Frederico Pereira, o Centro de Estudos Interculturais Aziz Ab´Sàber, o qual funciona até hoje, dinamizando a vida cultural da instituição, procurando honrar a pessoa e o trabalho do Prof. Aziz.

 

Aziz escolheu, aos 6 anos, estudar geografia, por poder “ler a paisagem” sem recurso a tecnologias dispendiosas (eram suficientes o olhar arguto, a paixão pelo trabalho, os sentimentos focalizados, o saber treinado). Assim começou a carreira do maior geomorfologista da paisagem brasileira, de um activo ambientalista, de um dedicado professor da USP, de um investigador que demonstrou ser, mais do que um professor de uma universidade, um cidadão do mundo.

 

O Prof. Aziz abriu caminho lutando pela orientação ética das acções sociais e pela relevância social das instituições académicas na formação dos hábitos e das práticas: o fim último dessa luta era a preservação de condições humanas na convivência entre os indivíduos e entre estes e a natureza.Produziu ampla obra, abordando temas como o manejo florestal, o desmatamento amazónico, a questão hídrica, a estrutura agrária, a ocupação do solo, a produção e a divisão da produção, mas debateu também questões que envolvem o Brasil urbano, as crises identitárias grupais, as reconstruções culturais em terreno inóspito, a questão indígena.

 

A visão do Prof. Aziz, a respeito destes problemas, é integrada, holística, e o seu discurso estratégico remete para o estudo pluridisciplinar, no qual os agentes desenvolvem o espírito da descoberta, da seriedade e da solidariedade. Também no modus faciendi se revela a preocupação por uma visão integrada: não é suficiente a escolha do alvo e dos instrumentos materiais de trabalho – o espírito com que ele é levado a cabo é determinante para o resultado.Tive o privilégio de acompanhar o Prof. Aziz ao longo de vários quilómetros no Estado do Amapá, Brasil, em Novembro de 2000. Aprendi muito sobre ele e com ele, observando como estabelecia contacto com as populações com as quais convivemos nesses dias. Ouvi-o numa aula e numa conferência, compartilhámos silêncios comovidos face a situações em que o desespero e a precariedade das condições de vida dos humanos foram por eles mesmos transformados, com tempo, empenho e talento, em soluções que beneficiaram todos e em orgulho colectivo. A comunidade ribeirinha que visitámos em Iratapuru deixou marcas indeléveis na minha memória – para só citar um caso, entre os vários que encheram de sentido aqueles dias no Amapá. Lembro Frederico Pereira e Jorge Senos, do ISPA, Alípio Freire e Nilson Moulin Louzada, amigos do Brasil, companheiros desses dias de transe. Lembro a Prof. Cléa, mulher de Aziz, também companheira desses dias, e a ela dirijo o meu pensamento neste momento de dor e perda para todos os próximos.

 

O Prof. Aziz travou as suas lutas nos campos da geomorfologia, da educação ambiental, das instituições académicas, e estava, geralmente, em confronto aberto com a política dos políticos de serviço. Quando ele “lia” a paisagem, via tudo o que nela estava, homem incluído, procurando abrir caminho para a paz e para a harmonia. Como ele próprio afirmou, em entrevista (Junho de 1999), há que “ser feroz para ver se as coisas mudam”.

 

Feroz na luta política, adversário acérrimo da incompetência prepotente, aqui relembro o Prof. Aziz como um doce e sábio velho que partiu cedo demais, com o mesmo olhar de menino fascinado com o mundo, aos 87 anos.

 

Caro Prof. Aziz, despeço-me, sem o deixar nem o esquecer, relembrando um sonho seu, que alguns de nós fizemos nosso, aqui em Portugal, especialmente no ISPA, no Centro com o seu nome:

 

”Sonho com o dia em que os administradores públicos sentarão à mesa com cientistas de todas as áreas para tentarem, antes de executar determinada obra ou projeto, entender os impactos de seus atos amanhã, daqui a cinco, vinte, cem, milhares de anos.”
Aziz Ab´Sáber

 

Lisboa, 19 de Março de 2012
Luís Silva Pereira
Director do Centro de Estudos Interculturais Aziz Ab`Sàber