Realizou-se no passado dia 26 de Maio um Seminário de Psicopatologia sobre “Subjectividades Depressivas: Perspectivas Fenomenológicas e Existenciais”, organizado Departamento de Formação Permanente do ISPA, em colaboração com o Mestrado em Relação de Ajuda – Perspectivas da Psicoterapia Existencial.
Centena e meia de participantes estiveram durante 1 dia no Auditório Prof. Armando de Castro, constituindo uma assistência muito interessada, participativa e que questionou os autores das comunicações que foram apresentadas.
Pretendeu-se dar a conhecer trabalhos realizados no âmbito da cadeira de Psicopatologia do Mestrado em Relação de Ajuda – Perspectivas da Psicoterapia Existencial e, ao mesmo tempo, proporcionar uma oportunidade para reflectir sobre as experiências depressivas a partir das perspectivas da fenomenologia e do existencialismo nas suas aplicações ao estudo da psicopatologia compreensiva.
O programa deste encontro incluiu comunicações sobre os seguintes temas, versando sobre diferentes aspectos da fenomenologia da consciência depressiva e o modo de existir deprimido:
- Onirismo depressivo como forma de ser-no-mundo
- Espacialidade nas experiências depressivas
- Fenomenologia da culpa nas experiências depressivas
- Presença melancólica, segundo L. Binswanger
- Fenomenologia da tristeza vital / dor depressiva
- Significado da experiência depressiva em Viktor Frankl
- Contextos sociais, solidão e subjectividade depressiva
- Contextos sociais e subjectividade depressiva. Um contexto particular: o mundo do trabalho e a vontade de sentido
- Actualidade das perspectivas fenomenológicas e existenciais das depressões
É conhecida a importância crescente da psicopatologia depressiva, quer por associar-se a experiências significativas de sofrimento, quer pelas dificuldades que pode representar para o desenvolvimento de projectos pessoais, familiares e profissionais de quem está deprimido. Numa época em que se tornaram dominantes os modelos biológicos da depressão e há quem pretenda que os fármacos anti-depressivos seriam a única solução, é essencial conhecer abordagens compreensivas sobre o que é estar-deprimido a partir das perspectivas fenomenológicas e existenciais, isto é, que abordem a consciência depressiva e o modo de existir deprimido.
Vítor Amorim Rodrigues (psiquiatra, Hospital Miguel Bombarda / ISPA) começou por contrapor as visões biomédica e existencial da psicopatologia e por relacionar sonhos, subjectividade depressiva e mundo do deprimido. Seguidamente apresentou a concepção existencial da consciência onírica a partir dos pontos de vista de L. Binswanger e Medard Boss, e apresentou um sonho de um sujeito deprimido que analisou com o método fenomenológico para iluminar o seu significado existencial, colocando também em evidência as diferenças com a interpretação psicanalítica dos sonhos,
Nuno Ferrão (psicólogo), depois de caracterizar a espacialidade como um dos existenciais (no sentido de Heidegger) em que assenta a existência concreta do ser humano, debateu as alterações da corporalidade e da espacialidade na subjectividade depressiva, nomeadamente as alterações do espaço vivido que se apresentam à consciência depressiva ao nível de diversas dimensões: espaço do Eu, espaço afectivo e espaço de vida activa, entre outras.
A fenomenologia da culpa nas experiências depressivas foi o tema abordado por Cristóvão Moura Nunes (psicólogo), que se centrou na experiência melancólica para analisar a relação entre culpa, temporalidade depressiva e valores sociais, de forma a caracterizar como é que a vivência de culpa aparece à consciência depressiva. Para terminar, apresentou uma visão existencial sobre a culpa depressiva, à qual pode ser atribuído um valor positivo com influência na auto-realização e na exploração das potencialidades pessoais.
João da Fonseca (psicólogo) apresentou o ponto de vista de L. Binswanger sobre o Dasein melancólico. Começou por uma nota biográfica sobre o autor, para caracterizar de seguida, em traços gerais, as suas contribuições para a psicopatologia e para a psicoterapia. Desenvolveu o conceito de presença melancólica, com a sua redução da capacidade para viver e conhecer, opacidade em relação a si mesmo e limitação, como forma de existência frustrada.
A fenomenologia da tristeza vital foi o tema desenvolvido por Joana Gomes Teixeira (psicóloga) que, também centrando-se na consciência melancólica, promoveu uma análise fenomenológica a partir da temporalidade, da espacialidade, da corporalidade e da culpabilidade depressivas, relacionando-as com algumas linhas de orientação na prática da psicoterapia existencial.
Branca Sá Pires (psicóloga) apresentou o ponto de vista de Viktor Frankl sobre a depressão, após ter apresentado o autor, quer do ponto de vista biográfico quer da sua obra. Focalizando na experiência depressiva referiu características da experiência vivida, influências sociais e, ainda, alguns modelos de intervenção propostos por Frankl para pacientes melancólicos.
As relações entre contextos sociais, solidão e experiências depressivas foram abordadas por Cláudia Rosa (assistente social, CGD). Após caracterizar alguns traços dominantes nos contextos sociais e culturais ocidentais, caracterizou a experiência de solidão como dado da existência. Seguidamente, relacionou a solidão com a subjectividade depressiva na dupla vertente: de que modo a solidão pode levar à depressão e de que modo a depressão pode levar à solidão. Abordou também a dimensão psicoterapêutica direccionada para os sentimentos de solidão e depressivos.
Ana Margarida Nogueira (assistente social, CGD) comunicou a propósito das relações entre contextos laborais e subjectividades depressivas. Suportando a sua aproximação em conceitos de Husserl, Heidegger e Sartre refletiu sobre o trabalho como possível fonte de sentido, mas também como possível factor depressivogénio e situando o este problema no contexto das novas realidades laborais.
A actualidade das perspectivas fenomenológicas e existenciais das depressões foi o tema abordado por José A. Carvalho Teixeira (psiquiatra, ISPA) que começou por apontar os traços essenciais do fenómeno “depressão” na actualidade: banalização, negação da causalidade multi-factorial e aumento da sua prevalência. Depois de reflectir sobre alguns factores em que assentam esses traços, nomeadamente a actual deriva organicista da psiquiatria, o marketing da depressão, a influência da indústria farmacêutica e a globalização, passou em revista brevemente algumas concepções fenomenológico-existenciais das depressões, em particular as propostas por E. Minkowski, E. Strauss, T. Fuchs, L. Binswanger, Medard Boss, Viktor Frankl, Rollo May, e Chadwick. Finalmente, defendeu a actualidade destas perspectivas na compreensão da subjectividade depressiva que está-no-mundo, contra a despersonalização das categorias diagnósticas e das classificações tipo DSM, o positivismo biomédico e a “trituradora” dos anti-depressivos, a partir de pontos de vista epistemológicos, políticos, psicopatológicos e referindo também contribuições da psicoterapia existencial na recuperação de pessoas deprimidas.
José A. Carvalho Teixeira